Em meio ao discurso recorrente sobre modernidade, tecnologia e inovação, um depoimento simples, direto e profundamente humano, rompe o ruído do presente e nos obriga a revisitar o passado com responsabilidade histórica. A entrevista concedida por D. Justina Pereira Leite, conhecida no Bairro de Fátima como D. Helena, ao jornalista Alex Kennedy do Canal De Boa Podcast, não é apenas um relato pessoal: é um registro vivo de uma política pública que funcionou.
Moradora do Bairro de Fátima há quase 60 anos e considerada uma de suas fundadoras, D. Justina, hoje com 86 anos, afirma com clareza que o melhor período para os idosos em São Luís foi durante as gestões de Dr. Jackson Lago e Tadeu Palácio. Não por afinidade política, mas por experiência concreta, cotidiana e prolongada.
Natural de Pedreiras (MA), D. Justina carrega ainda um vínculo simbólico que ajuda a compreender a força de sua fala. Ela é conterrânea de João do Vale, cantor e compositor maranhense consagrado como o “Poeta do Povo”, cuja obra sempre traduziu a dignidade dos humildes, a vida simples e a luta cotidiana do povo nordestino. Essa origem ajuda a explicar a sensibilidade social, a consciência coletiva e a memória afetiva que atravessam seu depoimento não como discurso político, mas como vivência real de quem experimentou uma cidade mais humana e inclusiva.
O vídeo revela algo que os números frios nem sempre conseguem mostrar: houve um tempo em que o Município de São Luís investia, de forma estruturada e prioritária, em políticas de inclusão e justiça social, especialmente voltadas à população idosa. E isso ocorria muito antes da explosão das redes sociais ou do discurso atual sobre “cidades inteligentes”.
Segundo D. Justina, naquele período existiam grupos educativos, escolas específicas, centros de formação, cursos profissionalizantes e culturais, além de acompanhamento contínuo por equipes técnicas. Havia aulas regulares inclusive de inglês, cursos de informática com um computador por aluno, distribuição de material escolar, alimentação, passeios culturais e, sobretudo, tratamento digno.
O cuidado não se limitava à educação. O poder público oferecia ações de saúde integral, com palestras de médicos especialistas, acompanhamento de enfermagem, fisioterapia, atividades físicas como yoga, além de iniciativas voltadas à autoestima: cuidados com a pele, cabelo, unhas e bem-estar. Para D. Justina, isso não era luxo, era reconhecimento da humanidade do idoso.
A frase que mais se repete em seu depoimento é contundente: “Foi a época em que eu me senti gente.”
Essa expressão sintetiza o impacto social das políticas adotadas à época. Após uma cirurgia cardíaca e meses de internação, D. Justina relata que foi nesses grupos que recuperou não apenas a saúde física, mas o sentido de pertencimento, autonomia e dignidade. “Eles diziam que queriam tirar os idosos de dentro de casa. E conseguiram”, afirma.
O vídeo também destaca a postura pessoal dos gestores, especialmente de Tadeu Palácio, descrito como simples, acessível e presente. Segundo D. Justina, ele frequentava os espaços, sentava entre os idosos, conversava, ouvia e demonstrava respeito genuíno. “Ou foi criado por vó, ou foi criado para gostar de velho”, diz ela, numa observação espontânea, mas politicamente reveladora.
O depoimento toca ainda em temas sensíveis e atuais: o etarismo, o racismo estrutural e a invisibilidade social dos idosos, inclusive dentro das próprias famílias. D. Justina relata como o olhar atento, o tratamento respeitoso e o simples ato de ouvir transformam a forma como uma pessoa se percebe na sociedade. Para ela, inclusão começa no gesto, mas se sustenta na política pública.
Ao final do vídeo, há um apelo direto e legítimo: que o poder público atual enxergue novamente os idosos como prioridade, retomando políticas que já existiram e que deram certo. Não se trata de copiar o passado, mas de reconhecer que São Luís já foi uma cidade inclusiva e pode voltar a ser.
É nesse ponto que se insere a reflexão do Blog A Força das Comunidades:
POR QUÊ São Luís se afastou desse modelo de inclusão social?
POR QUÊ políticas que humanizavam a cidade deixaram de ser centrais na gestão pública?
O depoimento de D. Justina não acusa, mas ensina. Não idealiza, mas comprova. Ele nos lembra que inclusão não é discurso, é prática continuada, construída com orçamento, planejamento, sensibilidade e compromisso político.
Quando uma cidade faz o idoso “se sentir gente”, ela está, na verdade, afirmando o valor da vida em todas as suas fases. E essa talvez seja a lição mais atual que o passado de São Luís ainda tem a nos oferecer.


