Venezuela: da independência à decadência — petróleo, poder, interesses globais e o impasse da transição
A história da Venezuela é marcada por ciclos profundos de esperança, prosperidade e estabilidade, seguidos por um longo processo de colapso institucional, empobrecimento social e autoritarismo político. Compreender a crise atual exige ir além de leituras ideológicas rasas e analisar, com rigor histórico e jornalístico, quem ajudou a construir o país, quem se beneficiou de sua riqueza e quem falhou em convertê-la em prosperidade duradoura para seu povo.
O Blog A Força das Comunidades apresenta este texto como um alerta ao internauta. Na próxima edição da nova série editorial “O PORQUÊ”, o debate será aprofundado, revisitando a trajetória da Venezuela desde sua independência até a construção e posterior erosão de um Estado moderno.
O BRASIL, LULA e o “CONSELHO DA PAZ”
O debate sobre a eventual participação do Brasil em um “Conselho da Paz” proposto pelos Estados Unidos, expõe um dilema estratégico complexo, que não pode ser reduzido a uma oposição simplista entre soberania nacional e alinhamento internacional. Para parte dos analistas, a iniciativa norte-americana reflete uma postura de cautela dos próprios Estados Unidos diante do avanço da influência de outras potências globais em regiões consideradas estratégicas, como a Amazônia e a Venezuela, buscando ampliar mecanismos multilaterais de cooperação, monitoramento e proteção de ativos ambientais, energéticos e institucionais.
Já a postura do governo brasileiro tem sido interpretada menos como prudência diplomática e mais como resultado de escolhas políticas e alinhamentos internacionais já consolidados, que priorizam relações com parceiros como China, Rússia e outros atores extra-regionais, em um contexto de intensas disputas geopolíticas e de crescente interesse internacional sobre os recursos naturais e a posição estratégica da América do Sul.
Em vez de atribuir essa posição brasileira a uma estratégia de “cautela”, o comportamento do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ser compreendido a partir de múltiplos fatores políticos, estratégicos e institucionais, que revelam limites objetivos de atuação internacional e decisões já assumidas no campo da política externa:
• político-ideológico, decorrente da afinidade histórica do atual governo com correntes políticas latino-americanas associadas ao campo progressista, inclusive regimes frequentemente questionados por seu déficit democrático, o que reduz a margem do Brasil para apoiar ou integrar iniciativas internacionais que pressuponham pressões externas, transições políticas ou mecanismos de fiscalização mais rigorosos;
• geopolítico, relacionado à tentativa de sustentar um discurso de autonomia diplomática e protagonismo regional, mas que encontra dificuldades práticas diante de alianças internacionais previamente firmadas e da crescente competição entre grandes potências por influência na América do Sul;
• diplomático-comercial, considerando o aprofundamento das relações econômicas e políticas do Brasil, nos últimos anos, com países como China, Rússia, Irã e nações do Oriente Médio, ao mesmo tempo em que o governo brasileiro adotou posições públicas críticas a aliados tradicionais dos Estados Unidos, como Israel, movimentos que geram impactos diretos na credibilidade e na atuação do país em fóruns multilaterais liderados por Washington;
• estratégico-institucional, na medida em que a participação em um conselho internacional com poder decisório efetivo, poderia submeter o Brasil a cobranças mais diretas sobre coerência democrática, respeito aos direitos humanos e posicionamentos objetivos diante de regimes autoritários, inclusive no próprio continente sul-americano.
Nesse contexto, a posição brasileira não se explica por uma estratégia de prudência voltada à proteção de ativos sensíveis, mas por cálculos políticos internos, compromissos internacionais previamente assumidos e pela dificuldade de sustentar, simultaneamente, alianças divergentes em um ambiente internacional cada vez mais polarizado.
O PORQUÊ?
Para o governo brasileiro, o petróleo vale mais que o cidadão? A democracia torna-se descartável diante de interesses estratégicos e energéticos?
O que está, de fato, por trás da resistência do Brasil em se posicionar de forma clara sobre uma eventual adesão ao Conselho da Paz? A aproximação com os Estados Unidos não poderia fortalecer a democracia e contribuir para a melhoria das condições de vida do povo venezuelano?
Não é de hoje que a crise da Venezuela se consolidou como um impasse geopolítico de grandes proporções. Diante desse cenário, é legítimo questionar se uma eventual adesão do Brasil ao Conselho da Paz, poderia contribuir para uma maior proteção institucional para a nação vizinha em um momento tão delicado. Ao mesmo tempo, a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos em janeiro de 2026, operação que resultou na sua detenção e em acusações criminais apresentadas nos tribunais federais em Nova York, continua sendo um evento que gera forte e duradoura reação entre diferentes correntes políticas, especialmente entre setores que se identificam com o chavismo e com a esquerda regional e que veem nessa ação uma ferida aberta difícil de ser curada. Nesse contexto, a ausência de uma posição mais firme do governo brasileiro, levanta dúvidas sobre até que ponto essa postura se relaciona, ainda que indiretamente, com a manutenção da sobrevivência política de remanescentes do chavismo no comando do Estado venezuelano, mesmo após a mudança abrupta na liderança formal.
O QUE ESTÁ EM JOGO
O que está em jogo, portanto, ultrapassa em muito a discussão sobre quem ocupa o poder na Venezuela. Trata-se do controle, da gestão e da redistribuição futura de uma das maiores riquezas petrolíferas do planeta em um cenário pós-crise, assim como da reconstrução ou redefinição de instituições políticas, jurídicas e eleitorais hoje profundamente fragilizadas. Ao mesmo tempo, esse processo influencia diretamente o reposicionamento do equilíbrio de poder na América do Sul e coloca à prova a credibilidade do discurso democrático internacional, frequentemente tensionado por interesses energéticos, disputas estratégicas e alianças seletivas que moldam as decisões das grandes potências e dos atores regionais.
O Blog A Força das Comunidades seguirá acompanhando com atenção os desdobramentos desse debate, reafirmando seu compromisso com a análise crítica, plural e responsável dos grandes temas internacionais que impactam diretamente a América do Sul e o Brasil. Convidamos os internautas e leitores em geral a permanecerem atentos às próximas edições da nova série editorial “O PORQUÊ”, na qual aprofundaremos esse e outros assuntos estratégicos, revisitando com mais detalhe a trajetória histórica da Venezuela da independência à construção e à posterior erosão de um Estado moderno, sempre com o objetivo de estimular reflexão, informação qualificada e consciência política.



